terça-feira, 3 de março de 2026

pro (em PHENOMENA) - Museu Nacional de História Natural e da Ciência | 23 jan - 23 fev 2026

Phenomena: É num plural assente no singular que esta intervenção no MNHNC tenta propiciar um acontecimento múltiplo. 

Em forma de tríptico, combina três artistas, três conjuntos de obras de génese individual: Domingos Rego, Isabel Sabino e Rui Serra mostram respetivamente _périplo”“_pro” “_polis”.

A singularidade de cada um, já demonstrada em projetos com percursos, investigação e labor próprios distintos, surge em diferentes locais do museu, evidenciando diferenciações, mas também coincidências, conivências e interações. Assim, cada “sala”, cada projeto, opera uma rede de conceitos, mas, mesmo que um deles sobressaia ali como central (por exemplo NATUREZA, CORPO, CULTURA, são hipóteses transversais a todos) e possa afirmar, portanto, um universo específico de cada um, também acaba por sugerir pontos de contacto e abrir lugar para “intromissões”, remetendo para outros possíveis, numa experiência alargada. 

Visa-se, assim, possibilitar um acontecimento essencialmente poético, onde o vislumbre de algum fulgor ressoe como fenómeno, ou, como o plural do título sugere, uma constelação de eventos cuja deflagração ali suceda, aberta a uma partilha.




 


A ópera dos três vinténs[1]

 

A exposição Phenomena é apresentada em três atos simultâneos, em três espaços do museu, onde em cada sala os artistas visuais Domingos Rego, Isabel Sabino e Rui Serra se contagiam mutuamente ao entrecruzar  visões a propósito da matéria e dos seus limites de visibilidade, enquanto convergem num confluir de narrativas que se expandem e contaminam o pensar e o fazer artístico da contemporaneidade, numa representatividade poética transversal, mas não perdendo a individualidade de cada artista.  Como nos dizem os autores, “numa experiência mais alargada em que périplopro polis são, afinal, desafios da abertura percetiva e conceptual, da fluidez fenomenológica de cada elemento do projeto e do todo.”

 

A construção deste tríptico plural Phenomena é lugar onde a pintura, o desenho, a fotografia, os objetos, o vídeo e a instalação se materializam transversalmente, numa lógica de questionamento que aborda os conceitos de Natureza, do Corpo e da Cultura. Num encontro simbólico com o real, reintegrando conceitos de forma fragmentada num campo expandido, Phenomena associa três exposições: périplo de Domingos Rego, pro Isabel Sabino e polis de Rui Serra.

 

A exposição de Isabel Sabino intitulada pro, “poderia ser o nome de uma cobaia, um corpo sujeito a ensaios cuja indefinição remete para um estado em devir, algo entre célula, carne, cinzas, pedra, água, animal e vegetal, planeta, orgânico e inorgânico, natural e artificial, letra e algarismo, memória e imaginário”, como nos diz a artista.  Mas também pode ser o prefixo de prólogo, de prospeções e de prosa, objetos artísticos que compõem a exposição.

 

O despojamento e a simplicidade da exposição escondem a complexidade de emoções subjacentes a estes trabalhos artísticos, centrando-se numa inquietude latente de suspensão do tempo, de homogenia da impermanência. Não é uma narrativa linear de histórias de encantar: o era uma vez, não tem aqui lugar.  “O historicismo propõe a imagem ‘eterna’ do passado; o materialista histórico fá-lo acompanhar de uma experiência que é única. Deixa aos outros o papel de se entregarem, no bordel do historicismo, à prostituta chamada ‘Era uma vez’. Ele permanece senhor das suas forças, suficientemente forte para destruir o contínuo da história.”[2] Isabel Sabino, num ato de sobrevivência física e emocional de uma fragilidade comovedora e de uma força esmagadora, cria uma sequência vertiginosa de pensamentos que flutuam subtilmente e se transformam em colagens projetadas no ecrã instalado na sala, em pinturas a óleo sobre espelho e objetos digitais, os SketchBooks-tablets, dentro das gavetas.

 

A vídeo-instalação G é composta por ilustrações que partiram do texto A Metamorfose de Franz Kafka, colagens em formatos diferentes, algumas com fragmentos do texto. Subtilmente dentro das gavetas encontram-se vinte e uma prospeções, com referências a outros dois contos de Kafka: Um Relatório para a Academia e Josephine, a Cantora, ou o Povo dos Ratos; e pequenas pinturas sobre espelhos, pequenos apontamentos que se confundem com a nossa imagem. Estes reflexos não traduzem a realidade, mas são a própria realidade desvanecida num modelo real. 

 

A obra Still life, colocada no centro da sala, vem provocar um desvio à homogeneidade e linearidade da exposição, a sua autonomia no espaço traduz uma inquietação e alerta para os visitantes, peça em progresso. Completa a exposição um relatório em prosa paralela à exposição.

 

Com estes trabalhos Isabel Sabino pretende subtilmente superar a sua angústia num ato sublime de criação artística numa dicotomia entre a racionalidade e a emotividade. “Sentimos incerteza quando não conhecemos bem os tipos de fatores que fazem de nossa situação o que ela é; assim, não sabemos quais deles devem ser empregados e colocados em movimento para tornar nossa situação mais agradável – ou os fatores necessários para evitar que ela piore; sentimos impotência quando aprendemos ou suspeitamos que, embora tivéssemos preparado um inventário completo de tais fatores, nos faltariam ferramentas, habilidades ou recursos para colocá-los em movimento ou para desligá-los, caso necessário.”[3] Esta exposição para além da sua beleza estética e profundamente erudita é uma lição de vida sem o querer ser.  

Sofia Marçal 



[1]Apropriação do título  peça de teatro musical do dramaturgo alemão Bertolt Brecht com música do compositor Kurt Weill.

[2]Walter Benjamin, in: O Anjo da História, p.19.

[3] Zygmunt Bauman, in: Danos Colaterais – Desigualdades sociais numa era global, p.134

Sem comentários:

Enviar um comentário