segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

E os ríos nascem no mar | Algumas imagens de obras da exposição no LUGAR DO DESENHO - Fundação Júlio Resende

Repared, repaired. 2014    
Técn. mista de grafite e aguadas s/ papel, 120x150 cm
(
Coleção Núcleo do Calçado de S. João da Madeira).

The rush. 2014  
Técn. mista de grafite e aguadas s/ papel, 120x150 cm (Coleção Núcleo do Calçado de S. João da Madeira).

L'invitation au voyage I. 2015  
Técn. mista de grafite e aguadas s/ papel, 100x150 cm 

L'invitation au voyage II. 2015  Técn. mista de grafite e aguadas s/ papel, 100x150 cm 

Seashells. 2015
Acrílicos s/ tela,  150x180 cm
.

sábado, 31 de outubro de 2015

…os ríos nascem no mar | Exposição no LUGAR DO DESENHO - fundação Júlio Resende




































Fragmentos de obras expostas. 
VER: http://www.lugardodesenho.org/005.aspx?dqa=0:144:0:12:0:0:-1:0:0





Mas eu sei que a palavra beleza não é nada, sei que a beleza não existe em si mas é apenas o rosto, a forma, o sinal de uma verdade da qual ela não pode ser separada.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Arte Poética I

Mar, rio, lago, cascata: estas palavras invocam imagens, sejam de lugares que conhecemos ou inventamos. Permitam-me que use ambas, imagens e palavras, para vos introduzir à possibilidade de acesso a um espaço em que natureza e mundo se separam tanto quanto se une o que vemos, ouvimos, ou sentimos de outros modos.

Diga-se assim, desde já, que estas paisagens não são apenas para ver. Se, por um lado, nascem de memórias confusas ou sonhos acordados, se aludem a lugares reais ou àqueles que a caprichosa necessidade do processo transforma, ou se há narrativas que submetem formas ou formas que inventam enredos, também trazem acordes de música no ar, vozes filtradas pelo meio de outros sons, cheiros intensos que a cor destila, vento, brisa, calor, frio. Para quem vive um quotidiano intensamente carregado com exigências do real, da razão e dos outros, a pintura carece ser espaço de imensa liberdade, que permita que o pensamento flua como for preciso e, sem barreiras, nexos impostos e preconceitos, aceda a essa espécie de caldo primordial onde cada um, ao encontrar-se a sério consigo mesmo, talvez pressinta um caminho para os outros, de outro modo. Aqui, o que tem que ser, como disse Sophia do poema, “nem me pede uma ciência nem uma estética nem uma teoria. Pede-me antes (…) inteireza”.

Em suma, se nestas obras há uma verdade lá no fundo, as ideias imbuídas no ambiente e nos personagens não são apenas visíveis nem carecem de recorte à lâmina, antes vivem submersas no todo que as faz e que elas afectam. Logo, sem deixar de ser pintura e privilegiar  a superfície, abre-se à hipótese de regresso e invenção de um lugar onde o espaço não tem dimensões e a pura visualidade não existe.

Aliás, tão ingrato como parcelar o mar e os rios será dizer que estas paisagens são apenas território, pois o seu cariz interior  e mental ou o tom bucólico não implicam que se trate de um retrato, tanto quanto de uma elegia de um certo espaço natural. Se existe potencial poético (e político) para uma alegoria, desvia-se claramente da relação estrita com a natureza.

De resto, aqui o que interessa não é a natureza mas o mundo, são momentos significativos do mundo que se expande e fragiliza. Nesse mundo, onde os elos todos os dias se quebram e multiplicam desenfreadamente, cabem reinos ainda mais vulneráveis, como aquele de que Sophia também fala, “aquele que cada um por si mesmo encontra e conquista, a aliança que cada um tece”. E, se ele habita nas formas perfeitas das ânforas de barro antiquíssimas, talvez também a pintura possa continuar a constituir acesso para uma ligação das coisas.

Posso ainda dizer que, face a mostras anteriores, desta vez há uma trama mais larga de histórias possíveis, situação de síntese e transição. Mantém-se a aparência da paisagem onde se movem personagens, contextos visuais e cenas que têm, por vezes, arranque em pretextos propiciadores: ecos de uma ária de ópera ou de uma canção ligeira, impressões de um filme, um facto real como uma frase numa parede ou uma mensagem de telemóvel. Antes já houve uma morte numa piscina, rosas que foram pão e ao contrário, depois uma canção sobre dar e pedir de volta e, sempre, ter e perder no vai e vem da vida; a seguir virá um filme em que, no meio de uma tempestade, os bandidos mantém fora de abrigo os indígenas que subsistem de artefactos feitos de conchas. Aqui, desta vez, a questão que me coloco na preparação da história que se segue - abrandando o ritmo e voltando talvez atrás num ponto da situação e reelaboração em que os desenhos são essenciais – é descobrir como pode ser trabalhado o potencial humanista e eventualmente político (para já apenas visualizável mediante clichés que nada me interessam), armadilhando olhar e emoções por meios pictóricos.

Estou ciente, contudo, que as histórias em si valem o que valem, quase sempre isso é pouco e não interessa o que foi ou é. Conta sobretudo o que pode ser, ou seja, a capacidade dos pretextos para desencadearem conexões cujo sentido ilumine com um grão de esperança, por um momento que seja, o peso das coisas, o nosso imaginário e, desse modo, o nosso caminho no mundo.
Suponho que seja para isso a arte. E nesta, no seu conceito lato e multifuncional, persiste um reduto essencial que não se traduz por grandes relações de causa e efeito, mas é discretamente decisivo no movimento da vida através de nós, seja profundo como um rio subterrâneo ou gasoso como as gotas contidas nas nuvens.
Sim, aqui, os rios nascem no mar.[1]




... rivers are born in the sea[2]

Saying that these landscapes are just territory is so ungrateful as to parcel the sea and rivers, because their interior and mental feature or their bucolic accent don’t imply a portrait, as much as an elegy of a certain natural space. If there is poetic potential (...) for allegory, it clearly deviates from the close relationship with nature. Moreover, what matters here is not nature but the world, significant moments in the world that expands and weakens. In such a world, where every day ties are broken and wildly multiply, can fit even more vulnerable kingdoms, like the one that Sophia also speaks about, "the one that everybody for oneself finds and conquests, the alliance that each one weaves." And if this kingdom lives in the perfect forms of ancient clay amphorae, perhaps painting can continue to provide access to a connection of things.
(...)

Here, this time, the issue I put myself in the preparation of the following story - slowing down the pace and perhaps back into a reflection and re-elaboration stage where drawings are essential - is to figure out how humanist and eventually political potential (for now only viewable by clichés that do not interest me at all) can be worked, trapping look and emotions by pictorial means.

[1] Vozes da canção Loucos de Lisboa (Ala dos Namorados ou Rui Veloso).

[2] Song Loucos de Lisboa (Ala dos Namorados / Rui Veloso).

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Búzio: com Ana, Germaine e Sophia  2015
Desenho de técnica mista s/papel,  29,7x21  cm
(Publicado em RITO, Ana e BARATA, Hugo - Pequenos Momentos que atestam o início da possibilidade. Catálogo da exposição homónima dos autores na Sala do Veado do Museu de História Natural. Lisboa: Edição dos autores, s/n pág., 2015.)  

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Talvez bombons


Je vous ai apporté des bonbons    2014  Acrílicos s/ tela  125x195 cm


Quel bon dimanche pour la saison    2014  Acrílicos s/ tela  125x195 cm


Parce que les fleurs c'est périssable 2014 Acrílicos s/tela 150x180cm

Les bonbons c’est tellement bon    2014  Acrílicos s/ tela  125x195 cm


Les gens me regardent de travers  2014  Acrílicos s/ tela  130x180 cm
Je viens rechercher mes bonbons 2014  Acrílicos s/ tela  125x195 cm
J'espère qu'on pourra se promener I   2014  Acrílicos s/ tela  80x100 cm
J'espère qu'on pourra se promener II   2014  Acrílicos s/ tela  80x1o0 cm
J'espère qu'on pourra se promener III   2014  Acrílicos s/ tela  80x120 cm
J'espère qu'on pourra se promener IV   2014  Acrílicos s/ tela  80x120 cm
 Talvez bombons


Se quiser ler isto como um manual de instruções, saiba que há duas versões de uma voz podendo, para entrar no jogo, supor-se uma feminina e outra masculina – o que não é certo, mas serve para o caso.
Há então aquele momento em que a tal canção deixa de se ouvir e ele (de novo uma suposição - é de si que se trata) desiste de entender a razão daqueles estranhos recém-chegados, troca de lugar com ela (novo personagem igualmente aleatório) e entra no barco branco, deixando-se ir nas águas para longe da praia. À medida que se afastam, ouvem menos a restolhada dos pássaros a  lutarem pelos ninhos das árvores e a caírem quando falham, cada vez mais bravos. Mas, ainda confundidos com eles, numa fúria repentina impossível de travar, um dos dois (não interessa qual) olha para trás e, em jeito de sniper, atira aos maiores, repetidamente, apenas conseguindo aumentar a violência com que se debatem e devoram. Sem perder mais tempo,  com um nó na garganta, contemplam os tons do crepúsculo que se afunda escuro, morno e perfumado, sobre a imagem idílica da paisagem. Da água vem a mesma melodia que toca baixinho e luzes, brilhos que se confundem com peixes voadores mas, tal como se ignora a subida das marés, não se sabe o que são.
Deixam-se ir.

A segunda folha do manual diz para voltar atrás e começar de novo, por exemplo, pela tampa de uma caixa (de bombons, pode ser), como porta de um cenário sem palco que você mesmo pode atravessar numa dança muito sua (valsa, hip-hop ou vira, twist, tanto faz, só na aparência é a solo pois estou lá também).
O mundo é esse lugar e este o nosso tête-a-tête, mas as imagens desse mundo são-no apenas no sentido de constituírem provas visíveis da passagem dele por nós dois, e pela sua capacidade de fundação no nosso próprio imaginário: precário espelho, insinuante, suspeito. O delito cometido reside no próprio olhar: ele age. Mas, desde que ver se tornou um ato comunitário (tanto ou mais do que individual porque, já se sabe, cada par de olhos contém milhões de outros e a vulgaridade alastra), por culpa dele, do olhar, nada é uma única coisa: ou seja, uma pedra não é apenas uma pedra, nem uma nuvem um mero acidente no céu. O desafio então é entrar nesse abismo, ver pouco a pouco e de pernas para o ar, ir descobrindo. E aceitar que, quando se julga agarrar, se perde de novo. Porque, tal como a matéria líquida e escorregadia (feminina?), o tempo é caprichoso. Na pintura, a imobilidade é apenas corpo da suspensão impossível do tempo. Mas, se tudo correr bem, escuta-se nele nova voz subtil, numa extraordinária coincidência (de ecos?) que revela a estranha dificuldade da solidão ao eremita mais convicto.

É aí que, no manual de instruções, depois de je viens rechercher mes bonbons, falta a terceira página. Apenas podemos constatar os nossos personagens num miradouro talvez flutuante, ou à beira de um rio ou de um lago paradisíaco: pastam animais afáveis, alisam pratas de bombons até terem toque de cetim, alinham cores por parecenças e contrastes, pura contemplação ao som da pulsação natural nas veias, tranquila;  talvez guardem essas peles coloridas e brilhantes em pacotes de diferentes formatos, que rapidamente encherão tudo, talvez com elas façam uma nova ilha, uma jangada ou uma nave que desafie as águas que tudo invadem e permita partir de novo, navegar ou voar, regressar de novo, ser, sentir, agir (?).
Com a caixa, é certo, vinham flores vermelhas. Inesquecíveis como a alegria no estado puro, que mareja os olhos sem querermos. Tão perissables.
Algo absolutamente imprescindível, e por isso.

Isabel Sabino, abril de 2014