sexta-feira, 26 de novembro de 2010

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

E os pássaros cantam | Exposição

E os pássaros cantam

Cinco da manhã, o tempo deixa-se ouvir e a cor da penumbra, um estranho laranja dos candeeiros da rua, insinua números. E letras.
Mas depressa se rompe o alinhamento das palavras recém-formadas em surdina e os olhos constróiem figuras que corrigem as frases.

Há então uma piscina parada como um frasco fechado de compota onde, a qualquer momento, vai jorrar uma mangueira pousada na berma. Alguém cobre a cabeça com um saco de plástico, nu da cintura para baixo. Alguém cobre. A cabeça.
O silêncio cai. Um odor torna-se mais forte, é verde cortado de fresco com pingos de mercurocromo.

Depois o sol brilha na superfície da água, ouro, turquesa, cristal. O paraíso existe no instante de um reflexo e uma mulher inacreditavelmente antiga aprende a nadar para o caso de se afogar alguém. Enquanto alinha os braços na geometria conveniente desfia mentalmente tarefas e incómodos: o arrumador de carros; o que se aproximou no semáforo com um borrifador e uma esponja para limpar o pára-brisas; o que bateu à porta para colocar propaganda de hipermercados na caixa do correio; e aquela pessoa que telefonou a dizer que havia um prémio no seu nome em tal lugar-assim-assim; e, no meio disto, há que sacudir o pó de talco da touca de banho obrigatória, fazer a lista de compras para o jantar com aquelas pessoas que tem de ser, vestir uma blusa diferente, não é incómodo nenhum, nem pensar nisso, gosta muito de os ter. Cá. Pois.
Aplausos discretos. Clap clap.
Nesses dias não tem receio dos assaltos, mas não é só isso. Precisará de uma mão amiga que lhe abotoe o colar, como na hidro-ginástica, onde chega sempre meia hora antes.
Pensa alto: não tenhas medo, aqui todos se conhecem. E repete: não tenhas medo; aqui todos se conhecem. Repete comigo, diz.
Aqui.

Dois homens abraçam-se, com grandes palmadas nas costas. A tinta alastra.

Pela boca aberta da mangueira sai agora gelatina de morango e os mais miúdos nadam para lá, com uivos de satisfação e as bóias subitamente iluminadas por dentro. Não tenham medo. Aqui só se entra se. E daqui ninguém pode sair. A não ser.
A água torna-se mais opaca e, no fundo, há uma sombra que mal se percebe e que alguém tenta apagar, esfrega com mais força, outra vez, outra.
Não há meio de desaparecer. Deixa lá.
De qualquer modo, já poucos se lembram como era.

Um pescador de pérolas mergulha, claramente fora de compasso e quatro figuras sobem, como anjos numa ascensão. Uma luz azul, um nó na garganta. Um filme que não se consegue ver de novo. Ao fundo há uma paisagem verde, edénica também, onde irrompe um grande cartaz com um número de telefone – coisas de que as pessoas devem precisar.
Mas da intriga poucos sabem, tanto tempo antes dos sapatos deixados ali na beira, inúteis. E a história, essa, cedo ou nunca se vingará da arrogância dos funcionários oficiais e dos avisos nas árvores em redor das piscinas vazias cujas tintas infectaram letras e figuras, rangendo razões como unhas no gesso.

Assim neste momento já parece tarde demais, por isso escreve o que falta no vidro embaciado do balneário, com o dedo, devagar, para não te lembrares depois, pensa ela. Do lado de lá, caída, há uma luva com dedos cortados. Coisa turva. O vidro ou o olhar?

Longe, um eléctrico sobe a rua devagar, desafinando um guincho familiar nos carris, e a cor da neblina espera que os corpos se desaconcheguem da noite.
E seis e um quarto e já ruído de passos no andar de cima. Num estrondo, há então um colar que cai, o fio quebrado, as contas espalhadas. Perdidas pérolas a metros de profundidade, o ralo escancarado.
Um automóvel arranca.
No mapa que continua desconexo, os traços brancos fazem uma espécie de cantos. E vai-se ver é alcatrão, são rectângulos vazios de carros que antes lá estavam.
Restos outros. Lágrimas secas. Reprivatizadas como deve ser, sem bóias nem gomas coloridas, pois tocar em certas guerras fere os dedos, a não ser que estejam idas. E basta.

Portanto assim seja, “constrói cerimónias”, diz na página tal, abre o teu caminho entre vulgaridades de que se repleta o mundo, a razão a contar menos, as emoções a ditar o trilho a partir da sua hipótese e verdade, mesmo em águas muito fundas, abaixo da tona que te trava.
Nada com força, nada convicta. O lugar é este e é este o caminho, o rasto passa depressa mas é o teu. Mergulha. Salva-te.
Talvez batam palmas, mas.

Agora, através das janelas das traseiras a luz malva recorta perfis.
Os pássaros cantam. Stridono lassù, Nedda dizia. Cantam até quando há lugares sobre os quais supomos que não voltam a voar.
Ouve-se o canto.
Mesmo não se vendo, lá estão eles.

Por isso, no ténue claro-escuro que os espelhos não reflectem (ainda), desenha-se um sorriso.
E fica cá.

Isabel Sabino, Outubro de 2009

Texto da exposição na Galeria Arte Periférica, 30 Out-3 Dez 2009

E os pássaros cantam | PINTURAS


Can he never be seen 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

No folk is faithfull unless it feels 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

Here images govern the idea 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

You yourself live in the images 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

So will you perceive it in everything 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

Here lay your shoes aside 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

Who am I to combat 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm

The voice from within 2009

Técnica mista de acrílicos s/tela, 100x100cm


You have gone far enough 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela,
195cmx162cm

Oh What have you done 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130cmx130cm

What gleams must be gold 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130cmx130cm

Then I smash to pieces both 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130cmx130cm

While you spoke in ideas 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130cmx130cm

I was to speak to the heart 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130cmx130cm

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


You speak more simply than you understand 2009
Técnica mista de acrílicos s/tela, 130x130 cm
na ARTELISBOA
Galeria Arte Periférica
Nov 2009

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

E os pássaros cantam | CONVITE



Exposição na Galeria Arte Periférica
CCB Lisboa
Inaugura sábado 31 de Outubro, 15h30
Até 3 de Dezembro

Todos os dias 10h-20h

Depois de “Logo se vê”, conjunto de obras apresentadas na galeria Arte Periférica em 2007 que explorava o conceito de incomodidade no centro de várias referências existenciais e pictóricas, Isabel Sabino persegue a linha de trabalho enunciada em obras recentes em que a pintura, partindo sempre de experiências pessoais, é também descoberta no retomar de óperas deixadas incompletas pelos seus compositores. Assim, em “E os pássaros cantam”, um acidente real e o processo de sobrevivência às consequentes marcas emocionais tornam-se pretexto para uma alegoria mais vasta em que o espaço fechado da/s piscina/s e uma cor que tinge e contamina tudo obsessivamente falam do nosso tempo e da nossa relação com a vida e os lugares que habitamos.
Na pintura há, agora, uma presença gradualmente menor da matéria assumida como muro a riscar e romper. A superfície torna-se mais transparente em aguadas de cor, diversificando-se o grau de opacidade da tinta e os modos de registo, tal como a relação com o espaço, que vai recuperando a tridimensionalidade através da perspectiva e dos diferentes pontos de vista a que se remete o espectador, envolvendo-o.
Num plano paralelo, há um texto descontínuo de narrativas (no feminino) e os títulos das pinturas, deixando que as imagens e as palavras se completem e que a sensação se debata (ou não) com as ideias, num jogo entre a superfície e a profundidade de que resta um som ausente, um canto invisível.

ARTE E NATUREZA | Nature, Art, Change

Arte e Natureza
“Nature”, diziam os bolos embrulhados em papéis coloridos para despertar o desejo e recordar tradições nacionais e artistas contemporâneos: devorados num ápice, ficaram na mesa apenas os três tabuleiros vazios sobre a toalha branca. E também os papéis se foram.
“Art”, escreviam as minúsculas letras soltas feitas em massa doce, discretamente alojadas nas margens do jardim pequeno em três reduzidos derrames de ração para pássaros: as formigas chegaram imediatamente, os melros vieram pouco a pouco, e talvez mesmo os pássaros insectívoros tenham agradecido a dupla oferenda. Ainda há restos, entre fichas de identificação riscadas, para as aves que os quiserem. Talvez cantem mais assim.
“Change”, lê-se em pequenas tabuletas de gesso gravado, implantadas em estacas de madeira e ferro espetadas na terra, ao lado das que identificam as espécies botânicas: agora são o sol, a humidade do jardim grande, o próprio ar, agentes de uma transformação mais lenta do que as anteriores, mas igualmente eficaz no desfazer das diferenças. E papéis, coloridos de novo, são oferecidos por fim, para que do efémero e do incerto que caracterizam este tríptico - e que foi também o sentido geral da conferência que, com estas três peças, perfaz um todo - se possa guardar a frase de José Gomes Ferreira, aviso e elegia sobre uma alegada floresta, arte e natureza, bem entendido:
“É proibida a entrada a quem não andar espantado de existir”

Intervenções complementares da conferência "Uma (in)certa natureza", trabalho integrado no ciclo "Arte e Natureza" organizado pelo CIEBA/FBAUL, em Lisboa, respectivamente:
no Reservatório da Patriarcal, Largo do Príncipe Real; no jardim da FBAUL, Largo da Academia Nacional de Belas Artes; e no Jardim Botânico, Rua da Escola Politécnica.


segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pinturas de 2007-2009



A new place, 2008, técnica mista de acrílicos s/tela, 160cmx120

Lulu - Acto IV, 2008, técnica mista de acrílicos s/tela, 160cmx130



Lulu - Acto IV (Estudo preto), 2008, técnica mista de acrílicos s/tela, 120cmx100



















Lulu - Acto IV (Estudo branco), 2008, técnica mista de acrílicos s/tela, 120cmx100

Stridono lassù, 2007, técnica mista de acrílicos s/tela, 195cmx130