Galeria Arte Periférica. Até 31 julho 2014
sexta-feira, 18 de julho de 2014
segunda-feira, 21 de outubro de 2013
sábado, 10 de dezembro de 2011
segunda-feira, 18 de julho de 2011
São rosas, meu: pinturas
Fiquei sem sinal 2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela, 130cmx160cm
Há um vírus novo na net 2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela, 130cmx160cm
Cuidado com as flores, pá 2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela, 130cmx160cm
A ventoinha está a fazer um barulho esquisito 2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela, 130cmx160cm
Há uma bicha enorme para os gelados 2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela,160cmx100cm O limoeiro este ano está maluco 2010-2011
Técn Mista de acrílicos s/tela, 160cmx100cmÉ preciso mandar arranjar o telhado 2010-2011
Técn. mista de acrílicos s/ tela, 160cmx100cm
segunda-feira, 30 de maio de 2011
São rosas, meu
Galeria Arte Periférica, a partir de 8 de Junho.
Inauguração nesse dia, entre as 19h e as 23h.
Inauguração nesse dia, entre as 19h e as 23h.
sábado, 21 de maio de 2011
São rosas, meu
Agora, a matéria perde densidade e o muro parece dissipar-se numa névoa de diferentes texturas.
O espaço unifica-se, para que o olhar corra no entrelaçado das frases visuais. Como nas óperas incompletas a tecer debates entre personagens que escutam o eco da imagem e outros que precisam da solidez da geometria para preservar o esqueleto das ideias, o quadro é apenas uma aparição de uma história em aberto, cujas cores, nem sempre alla prima, trocam as voltas aos títulos.
Tudo pode acontecer, saltos, avanços, regressos. Estou-me nas tintas, penso como posso a cada momento: das caixas de imagens (ou de chocolates) à síntese hipotética, a enormidade e a voracidade dos mundos tornam raras a pureza das formas e das ideias, contaminação inevitável.
Aqui, neste laboratório de ecos, é impossível o cristal.
A paisagem não é, pois, de sítio nenhum. Só existe aqui e, como não cabe em cada quadro, continua de uns para os outros, sem moldura possível que não a do próprio corpo que cresce para além da pele, na narrativa profunda da sua inexplicável mutação. A periferia torna-se o centro e não existe dentro e fora, embora se possa inventar sempre a esperança de lugares aprazíveis, belos quartos protegidos ou paraísos, destinos de sonho afinal como aquelas bonecas eslavas que vão saindo umas das outras até se chegar à última, um coto do tamanho de uma impressão digital. O mapa cerrou-se à volta de tudo.
Mas haja, por exemplo, um jardim.
Com luz artificial e ventoinhas, plantas e flores, árvores de grande porte e pequenos arbustos, ervas de cheiro, mas também legumes, frutos comestíveis, lugares para guardar alfaias e telhados para um sono aconchegado, é um lugar perfeito, onde nada está no seu lugar – como se inúmeras mãos estivessem lá a trocar as coisas e os seus nomes, as rosas por pão ou cereais em vez disso.
Ou seria ao contrário, na lenda?
Debaixo das folhas das árvores que voam e tombam amarelas e verdes ou violetas, o chão foge para o coração das paredes e estas incham, incapazes de guardar tantas memórias impossíveis, desfazendo-se como papéis na água. Borrões elevam-se das paletas, como vinhetas de banda desenhada. Redentoras, dão vontade de rir, sem sabermos porquê.
Agora, só falta voltar a inventar as pessoas para fingirmos que este mundo foi feito para elas.
Portanto, já que tem que haver alguém, então que surja um ele, numa imagem com erros de transmissão, micro néons a piscar, e diga assim qualquer coisa como:
- Vai ser preciso mandar arranjar o telhado e tapar as fendas, dar uma demão de tinta.
O limoeiro este ano está maluco, também não admira com o que choveu, há limões até a cair no terreno do vizinho. E apareceram flores espantosas no meio das favas e das couves dos quintais, na net diz que são fungos mas parece que há um vírus novo que cria erros e este talvez seja um deles, senão vai ser preciso arrancar tudo.
De resto, não percebo o que se passa, mas é preciso cuidado com as flores.
Só que não há tempo agora, a ventoinha está a fazer um barulho esquisito, há que ver se. Voltar a ligar os cabos e substituir as lâmpadas fundidas. Arranjar folha de ouro para as molduras dos espelhos.
Vidros para a estufa. Anti-fungos para as rosas.
No chão que abafa os passos aparece ela, de repente, entre a folhagem, pronta a espingardar saliva no speed da fala:
- Quais rosas, meu?
Nesta altura, retiramos o som à personagem e ela fica pequena de novo, na orla do arvoredo. Figura pintada, tinta a fazer-se e a desfazer-se, não importa, toca-se, sente-se nos dedos: olhos no quadro all-over, como diversamente souberam Pollock e Poussin e repete, agora, o papagaio do vizinho.
De novo, quais rosas?
Silêncio.
Fiquei sem sinal, disse.
(Texto que acompanha e exposição "São rosas, meu", em breve na Galeria Arte Perférica)
O espaço unifica-se, para que o olhar corra no entrelaçado das frases visuais. Como nas óperas incompletas a tecer debates entre personagens que escutam o eco da imagem e outros que precisam da solidez da geometria para preservar o esqueleto das ideias, o quadro é apenas uma aparição de uma história em aberto, cujas cores, nem sempre alla prima, trocam as voltas aos títulos.
Tudo pode acontecer, saltos, avanços, regressos. Estou-me nas tintas, penso como posso a cada momento: das caixas de imagens (ou de chocolates) à síntese hipotética, a enormidade e a voracidade dos mundos tornam raras a pureza das formas e das ideias, contaminação inevitável.
Aqui, neste laboratório de ecos, é impossível o cristal.
A paisagem não é, pois, de sítio nenhum. Só existe aqui e, como não cabe em cada quadro, continua de uns para os outros, sem moldura possível que não a do próprio corpo que cresce para além da pele, na narrativa profunda da sua inexplicável mutação. A periferia torna-se o centro e não existe dentro e fora, embora se possa inventar sempre a esperança de lugares aprazíveis, belos quartos protegidos ou paraísos, destinos de sonho afinal como aquelas bonecas eslavas que vão saindo umas das outras até se chegar à última, um coto do tamanho de uma impressão digital. O mapa cerrou-se à volta de tudo.
Mas haja, por exemplo, um jardim.
Com luz artificial e ventoinhas, plantas e flores, árvores de grande porte e pequenos arbustos, ervas de cheiro, mas também legumes, frutos comestíveis, lugares para guardar alfaias e telhados para um sono aconchegado, é um lugar perfeito, onde nada está no seu lugar – como se inúmeras mãos estivessem lá a trocar as coisas e os seus nomes, as rosas por pão ou cereais em vez disso.
Ou seria ao contrário, na lenda?
Debaixo das folhas das árvores que voam e tombam amarelas e verdes ou violetas, o chão foge para o coração das paredes e estas incham, incapazes de guardar tantas memórias impossíveis, desfazendo-se como papéis na água. Borrões elevam-se das paletas, como vinhetas de banda desenhada. Redentoras, dão vontade de rir, sem sabermos porquê.
Agora, só falta voltar a inventar as pessoas para fingirmos que este mundo foi feito para elas.
Portanto, já que tem que haver alguém, então que surja um ele, numa imagem com erros de transmissão, micro néons a piscar, e diga assim qualquer coisa como:
- Vai ser preciso mandar arranjar o telhado e tapar as fendas, dar uma demão de tinta.
O limoeiro este ano está maluco, também não admira com o que choveu, há limões até a cair no terreno do vizinho. E apareceram flores espantosas no meio das favas e das couves dos quintais, na net diz que são fungos mas parece que há um vírus novo que cria erros e este talvez seja um deles, senão vai ser preciso arrancar tudo.
De resto, não percebo o que se passa, mas é preciso cuidado com as flores.
Só que não há tempo agora, a ventoinha está a fazer um barulho esquisito, há que ver se. Voltar a ligar os cabos e substituir as lâmpadas fundidas. Arranjar folha de ouro para as molduras dos espelhos.
Vidros para a estufa. Anti-fungos para as rosas.
No chão que abafa os passos aparece ela, de repente, entre a folhagem, pronta a espingardar saliva no speed da fala:
- Quais rosas, meu?
Nesta altura, retiramos o som à personagem e ela fica pequena de novo, na orla do arvoredo. Figura pintada, tinta a fazer-se e a desfazer-se, não importa, toca-se, sente-se nos dedos: olhos no quadro all-over, como diversamente souberam Pollock e Poussin e repete, agora, o papagaio do vizinho.
De novo, quais rosas?
Silêncio.
Fiquei sem sinal, disse.
(Texto que acompanha e exposição "São rosas, meu", em breve na Galeria Arte Perférica)
sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
D'Après Nuno Gonçalves | Museu Nacional de Arte Antiga
Ainda (2010)
No Museu Nacional de Arte Antiga, até 27 de Fevereiro de 2011
Partindo de uma hipotética projecção dos painéis de S. Vicente num plano horizontal, a obra vive da instalação de uma fila de seis estreitas caixas no chão, sem outro plinto senão quatro folhas de espelho alinhadas, impondo discretamente uma fronteira ou simples entrave à deambulação dos visitantes na sala.
Tanto quanto possível respeitadoras em escala da largura dos painéis, espessura das molduras e distância entre estas, e de altura mínima ditada pelo tamanho do conteúdo apresentado, cinco dessas caixas são transparentes e abertas, e a última, negra e fechada, oculta o interior.
Visíveis dentro das caixas e reflectidas no espelho, há hóstias, o mais singelo símbolo da comunhão na fé e na cultura de que os Portugueses fizeram bandeira para a expansão no mundo. E, tacteando uma ponte sobre o tempo, a nossa (íntima) inquietação recorda que, em latim, a significação última de hóstia remete para “vítima”, “sacrifício”, podendo propor uma reflexão contemporânea sobre o discurso dos painéis para além do sentido mais estrito dos mistérios da autoridade, dos rostos, das diferentes mangas de veludo ou da própria relíquia que o chão (nosso) sustenta, ainda.
sexta-feira, 26 de novembro de 2010
sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
E os pássaros cantam | Exposição
E os pássaros cantam
Cinco da manhã, o tempo deixa-se ouvir e a cor da penumbra, um estranho laranja dos candeeiros da rua, insinua números. E letras.
Mas depressa se rompe o alinhamento das palavras recém-formadas em surdina e os olhos constróiem figuras que corrigem as frases.
Há então uma piscina parada como um frasco fechado de compota onde, a qualquer momento, vai jorrar uma mangueira pousada na berma. Alguém cobre a cabeça com um saco de plástico, nu da cintura para baixo. Alguém cobre. A cabeça.
O silêncio cai. Um odor torna-se mais forte, é verde cortado de fresco com pingos de mercurocromo.
Depois o sol brilha na superfície da água, ouro, turquesa, cristal. O paraíso existe no instante de um reflexo e uma mulher inacreditavelmente antiga aprende a nadar para o caso de se afogar alguém. Enquanto alinha os braços na geometria conveniente desfia mentalmente tarefas e incómodos: o arrumador de carros; o que se aproximou no semáforo com um borrifador e uma esponja para limpar o pára-brisas; o que bateu à porta para colocar propaganda de hipermercados na caixa do correio; e aquela pessoa que telefonou a dizer que havia um prémio no seu nome em tal lugar-assim-assim; e, no meio disto, há que sacudir o pó de talco da touca de banho obrigatória, fazer a lista de compras para o jantar com aquelas pessoas que tem de ser, vestir uma blusa diferente, não é incómodo nenhum, nem pensar nisso, gosta muito de os ter. Cá. Pois.
Aplausos discretos. Clap clap.
Nesses dias não tem receio dos assaltos, mas não é só isso. Precisará de uma mão amiga que lhe abotoe o colar, como na hidro-ginástica, onde chega sempre meia hora antes.
Pensa alto: não tenhas medo, aqui todos se conhecem. E repete: não tenhas medo; aqui todos se conhecem. Repete comigo, diz.
Aqui.
Dois homens abraçam-se, com grandes palmadas nas costas. A tinta alastra.
Pela boca aberta da mangueira sai agora gelatina de morango e os mais miúdos nadam para lá, com uivos de satisfação e as bóias subitamente iluminadas por dentro. Não tenham medo. Aqui só se entra se. E daqui ninguém pode sair. A não ser.
A água torna-se mais opaca e, no fundo, há uma sombra que mal se percebe e que alguém tenta apagar, esfrega com mais força, outra vez, outra.
Não há meio de desaparecer. Deixa lá.
De qualquer modo, já poucos se lembram como era.
Um pescador de pérolas mergulha, claramente fora de compasso e quatro figuras sobem, como anjos numa ascensão. Uma luz azul, um nó na garganta. Um filme que não se consegue ver de novo. Ao fundo há uma paisagem verde, edénica também, onde irrompe um grande cartaz com um número de telefone – coisas de que as pessoas devem precisar.
Mas da intriga poucos sabem, tanto tempo antes dos sapatos deixados ali na beira, inúteis. E a história, essa, cedo ou nunca se vingará da arrogância dos funcionários oficiais e dos avisos nas árvores em redor das piscinas vazias cujas tintas infectaram letras e figuras, rangendo razões como unhas no gesso.
Assim neste momento já parece tarde demais, por isso escreve o que falta no vidro embaciado do balneário, com o dedo, devagar, para não te lembrares depois, pensa ela. Do lado de lá, caída, há uma luva com dedos cortados. Coisa turva. O vidro ou o olhar?
Longe, um eléctrico sobe a rua devagar, desafinando um guincho familiar nos carris, e a cor da neblina espera que os corpos se desaconcheguem da noite.
E seis e um quarto e já ruído de passos no andar de cima. Num estrondo, há então um colar que cai, o fio quebrado, as contas espalhadas. Perdidas pérolas a metros de profundidade, o ralo escancarado.
Um automóvel arranca.
No mapa que continua desconexo, os traços brancos fazem uma espécie de cantos. E vai-se ver é alcatrão, são rectângulos vazios de carros que antes lá estavam.
Restos outros. Lágrimas secas. Reprivatizadas como deve ser, sem bóias nem gomas coloridas, pois tocar em certas guerras fere os dedos, a não ser que estejam idas. E basta.
Portanto assim seja, “constrói cerimónias”, diz na página tal, abre o teu caminho entre vulgaridades de que se repleta o mundo, a razão a contar menos, as emoções a ditar o trilho a partir da sua hipótese e verdade, mesmo em águas muito fundas, abaixo da tona que te trava.
Nada com força, nada convicta. O lugar é este e é este o caminho, o rasto passa depressa mas é o teu. Mergulha. Salva-te.
Talvez batam palmas, mas.
Agora, através das janelas das traseiras a luz malva recorta perfis.
Os pássaros cantam. Stridono lassù, Nedda dizia. Cantam até quando há lugares sobre os quais supomos que não voltam a voar.
Ouve-se o canto.
Mesmo não se vendo, lá estão eles.
Por isso, no ténue claro-escuro que os espelhos não reflectem (ainda), desenha-se um sorriso.
E fica cá.
Isabel Sabino, Outubro de 2009
Texto da exposição na Galeria Arte Periférica, 30 Out-3 Dez 2009
Cinco da manhã, o tempo deixa-se ouvir e a cor da penumbra, um estranho laranja dos candeeiros da rua, insinua números. E letras.
Mas depressa se rompe o alinhamento das palavras recém-formadas em surdina e os olhos constróiem figuras que corrigem as frases.
Há então uma piscina parada como um frasco fechado de compota onde, a qualquer momento, vai jorrar uma mangueira pousada na berma. Alguém cobre a cabeça com um saco de plástico, nu da cintura para baixo. Alguém cobre. A cabeça.
O silêncio cai. Um odor torna-se mais forte, é verde cortado de fresco com pingos de mercurocromo.
Depois o sol brilha na superfície da água, ouro, turquesa, cristal. O paraíso existe no instante de um reflexo e uma mulher inacreditavelmente antiga aprende a nadar para o caso de se afogar alguém. Enquanto alinha os braços na geometria conveniente desfia mentalmente tarefas e incómodos: o arrumador de carros; o que se aproximou no semáforo com um borrifador e uma esponja para limpar o pára-brisas; o que bateu à porta para colocar propaganda de hipermercados na caixa do correio; e aquela pessoa que telefonou a dizer que havia um prémio no seu nome em tal lugar-assim-assim; e, no meio disto, há que sacudir o pó de talco da touca de banho obrigatória, fazer a lista de compras para o jantar com aquelas pessoas que tem de ser, vestir uma blusa diferente, não é incómodo nenhum, nem pensar nisso, gosta muito de os ter. Cá. Pois.
Aplausos discretos. Clap clap.
Nesses dias não tem receio dos assaltos, mas não é só isso. Precisará de uma mão amiga que lhe abotoe o colar, como na hidro-ginástica, onde chega sempre meia hora antes.
Pensa alto: não tenhas medo, aqui todos se conhecem. E repete: não tenhas medo; aqui todos se conhecem. Repete comigo, diz.
Aqui.
Dois homens abraçam-se, com grandes palmadas nas costas. A tinta alastra.
Pela boca aberta da mangueira sai agora gelatina de morango e os mais miúdos nadam para lá, com uivos de satisfação e as bóias subitamente iluminadas por dentro. Não tenham medo. Aqui só se entra se. E daqui ninguém pode sair. A não ser.
A água torna-se mais opaca e, no fundo, há uma sombra que mal se percebe e que alguém tenta apagar, esfrega com mais força, outra vez, outra.
Não há meio de desaparecer. Deixa lá.
De qualquer modo, já poucos se lembram como era.
Um pescador de pérolas mergulha, claramente fora de compasso e quatro figuras sobem, como anjos numa ascensão. Uma luz azul, um nó na garganta. Um filme que não se consegue ver de novo. Ao fundo há uma paisagem verde, edénica também, onde irrompe um grande cartaz com um número de telefone – coisas de que as pessoas devem precisar.
Mas da intriga poucos sabem, tanto tempo antes dos sapatos deixados ali na beira, inúteis. E a história, essa, cedo ou nunca se vingará da arrogância dos funcionários oficiais e dos avisos nas árvores em redor das piscinas vazias cujas tintas infectaram letras e figuras, rangendo razões como unhas no gesso.
Assim neste momento já parece tarde demais, por isso escreve o que falta no vidro embaciado do balneário, com o dedo, devagar, para não te lembrares depois, pensa ela. Do lado de lá, caída, há uma luva com dedos cortados. Coisa turva. O vidro ou o olhar?
Longe, um eléctrico sobe a rua devagar, desafinando um guincho familiar nos carris, e a cor da neblina espera que os corpos se desaconcheguem da noite.
E seis e um quarto e já ruído de passos no andar de cima. Num estrondo, há então um colar que cai, o fio quebrado, as contas espalhadas. Perdidas pérolas a metros de profundidade, o ralo escancarado.
Um automóvel arranca.
No mapa que continua desconexo, os traços brancos fazem uma espécie de cantos. E vai-se ver é alcatrão, são rectângulos vazios de carros que antes lá estavam.
Restos outros. Lágrimas secas. Reprivatizadas como deve ser, sem bóias nem gomas coloridas, pois tocar em certas guerras fere os dedos, a não ser que estejam idas. E basta.
Portanto assim seja, “constrói cerimónias”, diz na página tal, abre o teu caminho entre vulgaridades de que se repleta o mundo, a razão a contar menos, as emoções a ditar o trilho a partir da sua hipótese e verdade, mesmo em águas muito fundas, abaixo da tona que te trava.
Nada com força, nada convicta. O lugar é este e é este o caminho, o rasto passa depressa mas é o teu. Mergulha. Salva-te.
Talvez batam palmas, mas.
Agora, através das janelas das traseiras a luz malva recorta perfis.
Os pássaros cantam. Stridono lassù, Nedda dizia. Cantam até quando há lugares sobre os quais supomos que não voltam a voar.
Ouve-se o canto.
Mesmo não se vendo, lá estão eles.
Por isso, no ténue claro-escuro que os espelhos não reflectem (ainda), desenha-se um sorriso.
E fica cá.
Isabel Sabino, Outubro de 2009
Texto da exposição na Galeria Arte Periférica, 30 Out-3 Dez 2009
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